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A Igreja em Barroso

A Igreja em Barroso

03
Mar20

EDITORIAL - 15ª Edição

Ainda não vai há muito tempo, uma esposa foi visitar o seu marido ao hospital. Encontrou-me na rua, cabisbaixa, cumprimentei-a e nem me deu tempo de lhe perguntar pelo estado de saúde do marido, rapidamente desabafou: “Ai como está o meu marido, senhor padre. Está que nem um passarinho na cama do hospital, não diz uma palavra, não abre um olho, todo cheio de tubos e mais tubos. Que Deus me perdoe, sou muito católica como você sabe, mas já pedi várias vezes a Deus que o leve. Custa-me tanto ver o meu marido naquele estado”. Tirou um lenço do bolso e secou as sinceras lágrimas que lhe caiam dos olhos. Dei-lhe um pequeno conforto afetuoso e seguimos caminho.

Por princípio e por fidelidade à Igreja, sou contra a eutanásia. Mas temos de admitir que é um tema complexo. E quando é assim gosto de ler muito e ouvir muito sobre o assunto e gosto pouco de me entrincheirar num dos lados da barricada. Serei sempre pelo lado da vida, certamente.

O assunto da despenalização da eutanásia que não fez parte da campanha eleitoral, o que para mim é imperdoável tendo se em conta a honestidade política que se exige em democracia e para com o povo. Como o assunto poderia fazer perder votos, dá a impressão de que alguns partidos o querem aprovar à sorrelfa, para não terem danos eleitorais. Nesta fase da despenalização da Eutanásia que está em curso, ainda me está a custar entender como é que vamos ultrapassar dois grandes obstáculos: a inviolabilidade da vida ditada pela nossa Constituição e o juramento de Hipócrates que os médicos fazem, que os obriga sempre a cuidar da vida e nunca a matar, como bem lembrou a Ordem dos Médicos.

A nossa Constituição diz claramente que na vida não se toca. É inviolável. Se a Eutanásia for aprovada já não vai ser assim. Afinal, a vida é violável. E passámos a dar o direito ao Estado e a uma elite de julgar quando é que se deve viver e quando é que não se deve viver. Estaremos a ir por um bom caminho? Se se passa assim por cima da Constituição, muito mais se poderá começar a fazer a partir de agora. Por outro lado, chamem-lhe, de facto, todos os nomes bonitos e dissimulados, mas a Eutanásia é matar. Se a aprovarmos, estaremos a promover uma trágica cisão civilizacional: a dar a alguém o direito de julgar o valor da vida e de a tirar a outra pessoa. Alguém o fará sem escrúpulos, não tenho dúvidas, mas a perda de respeito pela sacralidade da vida é um grande pilar que cai na construção da nossa civilização humana.

Toda esta discussão acontece quando sabemos que temos uma rede de cuidados paliativos muito deficitária no país. E sabemos algo muito mais preocupante: não há dinheiro nem vontade para se aumentar esta rede no país, permitindo-se respeitar a vida e dar um fim mais indolor ao sofrimento de muitos pacientes. Estamos a ir pelo caminho mais fácil: dar-lhes o direito a morrer, ou seja, desculpem, não temos mais tempo nem dinheiro para vós, ide andando. Até um dia destes.

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