Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Igreja em Barroso

A Igreja em Barroso

21
Abr20

EDITORIAL

Os mesmos megafones que andam agora aí nas ruas a apelar para as pessoas se recolherem em casa e evitarem contactos sociais, poderiam já andar há meses a apelar a mudanças no mundo e no estilo de vida das pessoas, que não seriam ouvidos. Já os teriam mandado calar. Foi preciso um vírus invisível e letal, que nos fez de novo bater de frente com a mais pura verdade da nossa vida, a nossa fragilidade e contingência, para pararmos um pouco e questionarmos o estilo de vida e o rumo que temos vindo a dar à vida e ao mundo, para nos encontrarmos de novo com a nossa humanidade.

Já é consensual: não podemos continuar a viver como o fizemos até agora e é necessário o advento de um novo paradigma para a vida, que enforme e renove as nossas relações humanas, a política, a economia, a vida social, a nossa relação com o mundo. 

Um novo paradigma implica uma nova relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Nos últimos anos, fruto do muito bem-estar que se conquistou e da prodigalidade económica, escolhemos erradamente o caminho do individualismo. Passámos a assentar a vida na desacertada e egoísta ideia de que a pessoa humana se basta a si mesma, é autossuficiente, pode viver desligada dos outros, com direito a viver só para si mesma sem pensar nos outros. Tornámo-nos distantes e desinteressados uns dos outros. Pura ilusão e infantil conceção de vida. Construímos vidas com uma imensa solidão, que só aumentou a nossa fragilidade e nos tornou desumanos. Temos de recuperar a nossa relação com os outros. Precisamos de nos sintonizar mais uns com os outros, sermos mais uns para os outros e termos mais interesse verdadeiro e sadio uns pelos outros na família e na sociedade. Os outros não são um estorvo à nossa realização e felicidade. Só somos felizes com relações humanas e amizades profundas e saudáveis. Sou feliz com os outros. Temos de apostar, por isso, mais no ser e na construção humana das pessoas e menos no ter fútil, no parecer, no exibir narcísico, na idolatria da nossa imagem e suas aparências.

Mas para vivermos verdadeiras e profundas relações humanas, penso que temos de recuperar a nossa relação com Deus, onde nos reencontramos connosco e com os outros, de quem somos e seremos sempre criaturas e filhos, de quem altivamente nos afastámos. A tragédia da nossa história, que já vem das origens, chamemos-lhe pecado original, é o homem renegar a sua condição e vocação de filho de Deus e querer ocupar o lugar de Deus, querendo ser o criador, o dono e o senhor de si mesmo, da vida, dos outros e do mundo, querer ter o poder e o domínio de tudo, quando afinal lhe cabe a missão de ser fiel e cuidadoso administrador, numa aliança de amor com Deus. Os progressos da ciência e da técnica permitiram ao homem ter a convicção de que aquele sonho não era uma quimera, tudo teria solução e tudo em breve estaria nas suas mãos. Outra pura ilusão. Estamos tão frágeis e efémeros como sempre estivemos.

Por fim, temos de ter outra relação com a natureza, com o mundo e os seus recursos, que estamos egoisticamente a esgotar. Deus incumbiu o homem de ser o jardineiro deste mundo maravilhoso, cabendo-lhe cuidar dele para si e deixá-lo bom para os outros, mas o homem está a ser o seu destruidor. Não pode continuar a persistir o capitalismo selvagem, que está em vigor, com uma ganância desmedida e uma obsessão cega pelo lucro, com tão altos níveis de poluição, correndo-se o risco sério de o planeta se tornar perigoso e inabitável para a condição humana. É preciso mais respeito e um olhar novo para a natureza e seus recursos e pensar, de forma sustentável, no futuro da terra.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub